
Espera no consultório médico. Minutos que sempre duram uma eternidade, principalmente depois de um dia inteiro (e cansativo) de trabalho. A TV da recepção passa coisas sem importância para uma tarde… E sem som, para piorar. Esqueça se distrair, já que as revistas, quando tem, também não são lá muito atrativas (ou novas, para começar). Ainda bem que o telefone sempre fica disponível para… Ah, descarregou. Verdade. Se não fosse pelo aviso do plano, essa consulta seria falta. Então, para quê carregar o aparelho no trabalho se o destino original era a própria casa? Esgotadas todas as opções, só resta uma: olhar para o nada.
Só que o cérebro humano não costuma aceitar o nada sem inventar alguma coisa. Começa com olhar para as cores na parede (que é branca, mas às vezes tem umas listras… Ou algum detalhe em madeira), para a janela, para a bendita TV sem som... Depois a mente passa a lembrar de coisas do cotidiano, como os boletos e pendências do trabalho, por exemplo. Quem nunca se lembrou de um relatório que tinha para entregar enquanto esperava sua vez de fazer algum exame? Quando menos se espera, histórias dos filhos vêm à tona, alguma data importante chegando, coisas do cotidiano aparecem, e… Seu nome é chamado.
O que essa cena nos traz?
O fato é que a vida corrida, os feeds infinitos e a pressão constante por produtividade e resultados nos tirou o silêncio e a calma. Ocultou a contemplação da vida. Está demonizando o ócio (que muitas vezes, é criativo). E, consequentemente, fez com que as pessoas se esqueçam de muita coisa, afinal, o que não está na agenda, nos comunicadores, nas redes sociais e nas IAs do universo, não fica na nossa cabeça. Parar para ver o mar e o vai e vem das águas, em vez de ver a tela da câmera mostrando a mesma paisagem vem se mostrando algo cada vez mais raro.
Aliás, “parar” está se tornando cada vez mais escasso. Na busca cada vez maior por “otimizar o tempo e os processos” que o mercado de trabalho exige, as pessoas pagam o preço de quase nunca conviver com o silêncio. Até porque, quando nada mais no mundo te toma a atenção, o toque (ou a vibração) das notificações faz o trabalho, seja vindo de um telefone ou de um relógio inteligente (e, convenhamos, não importa a origem, a interrupção é a mesma). O trabalho, por exemplo, acaba por invadir o cotidiano vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, dessa maneira. Afinal, todo mundo tem WhatsApp, não é? Até o teu chefe, e, a depender do seu cargo, sempre vai ter alguém acima de você que não se importa nem com hora, nem com lugar. E, assim, “dias de folga” vão se tornando cada vez mais lendas urbanas.
Só que os dias não laborais também não têm dado descanso, e não é só por causa do mensageiro anteriormente citado. É também por causa das redes sociais, com seus vídeos curtos, feeds infinitos e que atualizam sozinhos (criando sempre um senso de urgência), algoritmos que entregam o que você quer e o que pode querer a qualquer momento. Quando não, é o combo de futebol, tênis, amigos e bebidas, conversas privadas… E o telefone. Tudo junto e isolado. E ocupando cada minuto do seu dia, não dando margem para mais nada.
E assim a vida passa sem que se repare na intensidade da chuva, nas cores do céu no amanhecer e no pôr-do-sol, no cachorro correndo, no gato dormindo (e ronronando!), nas crianças contando histórias fantasiosas sobre fugir do banho, no vento tocando o rosto, nas ondas do mar indo e vindo, na textura da areia da praia, na correnteza do rio, nos desenhos das nuvens, no tic-tac do relógio na parede, no suspiro do(a) parceiro(a) e de como ele(a), às vezes, olha para o nada em silêncio… E passa pelos dias sem sentir, de fato, o “bom dia”, o toque calmo da mão nos cabelos, o abraço inocente e cheio de sentimentos, o sorriso que esconde o olhar triste, os efeitos da distância (mesmo estando do lado), e a troca de olhares que fala mais do que palavras.
O que essa cena nos traz?

Quem dera se fosse fácil assim… É impossível viver sem utilizar a internet hoje em dia. E ser tão radical assim não costuma ser o melhor caminho em quase nada na vida. O mais interessante aqui é separar um tempo fora das telas mesmo.
Primeiro, é importante que se fique longe de telas, de preferência, de trinta a sessenta minutos antes de dormir. Use esse tempo para fazer outras atividades, como ler um livro físico (para si ou para as crianças, e não necessariamente de autoajuda ou voltado para desenvolvimento pessoal, porque a hora de estudar é outra), resolver um caça-palavras (sudoku, palavras-cruzadas, ou afins), fazer algum trabalho manual (crochê, tricô, artesanato em geral), interagir com o pet, ouvir música, conversar com quem está do lado (ou com mini seres humanos que estão no quarto do lado)… Tem muitas opções para fazer, e nenhuma envolve ser produtivo. Mas são tão (ou mais) importantes quanto.
Segundo, que quanto mais se fica com a cara grudada no telefone, menos se vê a vida e, principalmente, menos se vê as pessoas à sua volta. Na ânsia de ver o mundo (e os outros) através de uma tela, o que muitas vezes acontece é que o que está à sua volta (seu parceiro, seus filhos, seus pets) é deixado de lado. Até porque, essas coisas estão sempre ali, não é? Não vai sumir de repente e nunca mais vai aparecer, como aquele vídeo empolgante nas redes sociais… Tem certeza?
O fato de que a vida offline não é imediata como a vida online. Ela precisa de escuta e de observação ativas, de permanência, de paciência, de atenção, de conversas, de toque e de tempo. E, quanto mais tempo ficamos presos às telas, menos participamos da realidade que, por mais que ainda doa, é bela à sua maneira. Cabe a cada um, individualmente e dentro do seu pequeno coletivo, identificar o equilíbrio entre trabalho, hobby, interesses, manter-se informado e o quê e quem está à sua volta.
Encontrar o equilíbrio é, antes de tudo, definir e priorizar o que é essencial, cada um na sua caixinha.
Fontes:
G1: Uso de telas na cama aumenta o risco de insônia em 59% Techtudo: Celular à noite faz mal: descubra quando parar de usar antes de dormir
Quem sou eu: Formada em Relações Públicas, com MBA em Gestão de Processos e especialização em Escrita Criativa e Editoração, sou redatora e produtora de conteúdo. Possuo dois projetos: transformar os pensamentos e os sentimentos em falas literárias, como no blog “
Blog Chave Escrita”, e o cotidiano em prosa mais corporativa, por aqui.
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